sexta-feira, 22 de abril de 2011

Tentação(Conto de Clarice Lispector)

Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.

Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.

Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.

Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.

A menina abriu os olhos pasmada. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.

Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.

Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.

Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se com urgência, com encabulamento, surpreendidos.

No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.

Mas ambos eram comprometidos.

Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.

A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-la dobrar a outra esquina.

Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás

Conto extraído de LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.



Marco Vasconcelos

O que é Conto?

Todo mundo tem um pouco de contador de histórias. Na nossa rotina, estamos, constantemente, contando casos que nos chamam ou nos chamaram a atenção. Pode ser sobre o termino de um namorico, sobre a nossa frustração com alguém que fez alguma coisa da qual não gostamos etc. Isso é o que se pode chamar de nossa fofoca de cada dia. Essas historietas estão bastante relacionadas com um gênero literário chamado Conto.

O que é um conto? As definições são muitas e bastante variadas. Uma das acepções da palavra, de acordo com Massaud Moisés(2006,P.29) é ´´história, narrativa,historieta, fábula,´´caso,embuste, engodo, mentira(conto do vigário)´´. Vamos ficar com essa definição. Assim, concentremo-nos em algumas das principais características desse gênero literário. A saber: unidade de ação, unidade de espaço e unidade de tempo.

O conto é, pois, uma narrativa unívoca, univalente: constitui uma unidade dramática, uma célula dramática, visto que gravita ao redor de um único conflito(Moisés,Massaud,2006). Ou seja, tem como cerne um instante em que a vida dos personagens escapa da rotina, um instante diferente, especial. Somente um único momento eminente. Ao conto não agrada as digressões, divagações e exageros. Cada palavra tem sua razão de ser. Nesse gênero, o passado e o futuro não são muito importantes. O que importa, de fato, é o momento privilegiado.

Para Massaud Moisés(2006) ´´A unidade de ação condiciona as demais características do conto. Começando pela noção de espaço, verificamos que o lugar onde as personagens circulam é sempre de âmbito restrito.´´ Dificilmente os personagens do conto trocam ou saem do ambiente central. Quando isso acontece, temos duas possibilidades: ou a narrativa tenta abandonar sua condição de conto, ou o deslocamento é proveniente de alguma necessidade imposta pela conflito que lhe serve de base, constituindo a preparação da cena, busca de pormenores que possam enriquecer a ação etc. Dessa forma, a unidade de espaço decorre da circunstância de apenas determinado ambiente encerrar importância dramática.

Os acontecimentos no conto de preferência acontecem em curto lapso de tempo:já que não interessam o passado e o futuro, o conflito se passa em horas, ou em dias. Se levam anos, de duas uma:1) ou trata-se de um embrião de romance ou novela,2)ou o longo tempo referido aparece na forma de síntese dramática, que envolve, habitualmente, o passado do personagem. Ou seja, o conto é ´´objetivo´´, pois, despreza os desvios e atalhos narrativos, concentra-se na questão em foco. Logo,pode-se constatar unidade de tempo.

O conto tem muitas outras características,mas acredito que as mais importantes são essas três. O conto já mudou bastante de aspecto ao longo do tempo,contudo sempre preservou essas características explanas acima. É possível perceber, lendo contos de Clarice Lispector e Machado de Assis,manutenção da estrutura base do gênero, apesar de algumas mudanças estilísticas.

Para se fazer ou entender Literatura não basta apenas ouvir falar dos gêneros,de textos e de autores. É importantíssimo o contato com bons autores e bons textos. Deixarei algumas dicas de leitura,a saber: A Cartomante(Machado de Assis), Nova Califórnia(Lima Barreto), O Preso(Moreira Campos), Tentação(Clarice Lispector), Amor(Clarice Lispector) e Apenas um saxofone(Lygia Fagundes Telles).

Fontes:(Moisés, Massaud,A criação literária prosa 1, São paulo, Cultrix,,2006)
 (Bosi, Alfredo, História Concisa da Literatura Brasileira, São Paulo, Cultrix, 2006)

Marco Vasconcelos

sábado, 16 de abril de 2011

Materialidade do imaterial

Qual o peso do tempo?Qual a materialidade das horas?Qual a massa dos segundos?Há algum tempo,vivia o eternamente, hoje, exerço instante. Não se conhece o tempo a não ser através do corpo,da pele e das sensações. Triste daqueles que vivem dias sem corpo. Os seres mentais,os que buscam sentido íntimo em coisas que não têm sentido íntimo nenhum.

Em todo abraço, gero uma despedida repleta de um silêncio saboroso. Silêncio tem gosto?Palavra tem gosto?Em todo momento sinto que posso acabar. Para ser sincero,eu acabo em todo momento. Não sou um moribundo,sou alguém que gosta de morrer. Cansei de ter esperança,cansei de esperar por esperança. A despedida não é triste, muito menos rancorosa. Ela é um adeus a um instante, para que em outras instâncias um outro instante se faça.

Domino o mundo através da minha pele. Vem querida dar-me teu beijo, vem querido dar-me teu abraço... Ofereço-me e desfaço-me em meio a palavras multicoloridas e silêncios amorosos. O mais importante,talvez,seja o que cala.

Marco Vasconcelos